Tesouro de Villena. Três mil anos de história roubados em quatro minutos

Tesouro de Villena. Três mil anos de história roubados em quatro minutos

Vários assaltantes levaram várias peças da coleção do conhecido 'Tesouro de Villena', que se encontrava no Museu de Villena, na província de Alicante, em Espanha. A coleção é formada por cerca de 60 peças, produzidas há aproximadamente três mil anos.

Filipe Alexandre Gonçalves - RTP / Adicionar como fonte informativa
O 'Tesouro de Villiena' foi descoberto em 1963, é considerado a grande atração do Museu Villena, localizado na província de Alicante, em Espanha. Foto: Divulgação/Museu Arqueológico Municipal de Villena

Tinha sobrevivido a impérios, guerras e a quase três milénios. Mas bastaram quatro minutos para que um dos mais importantes tesouros da Idade do Bronze na Europa fosse colocado em risco. 

O 'Tesouro de Villena', uma coleção de peças de ouro, prata e ferro com cerca de 3.000 anos, foi alvo de um assalto na madrugada desta quinta-feira, em Espanha.

Mas há um detalhe que deixa a nu algumas fragilidades ao nível da segurança e vigilância: a rapidez do roubo.

O alarme do museu, na cidade de Villena, na província de Alicante, disparou por volta das 5h20. Às 5h24, os assaltantes já tinham desaparecido. Quatro minutos. Foi tempo suficiente para entrar no edifício, chegar ao tesouro e fugir. À Agência France Presse, um porta-voz da autarquia descreveu a operação como “ultrarrápida e ultraprofissional”.
Ao chegar ao museu, a polícia iniciou, de imediato, um inventário para determinar quais peças que desapareceram. 

O 'Tesouro de Villena' é composto por 50 a 60 peças, na maioria são em ouro. Entre elas encontram-se cerca de 29 braceletes, 11 taças e três recipientes semelhantes a garrafas, além de objetos em prata, ferro, âmbar e combinações de vários materiais.

Mas há uma razão para estas peças serem consideradas muito mais do que ouro antigo.

O próprio museu classifica o conjunto como "um dos mais importantes tesouros de ouro da Idade do Bronze", colocando-o ao lado dos tesouros encontrados nas tumbas reais de Micenas, na Grécia.

As peças terão sido produzidas por volta de 1.000 a.C., numa época em que a Península Ibérica estava muito longe de conhecer as sociedades e fronteiras que hoje definem a Europa.

O tesouro esteve escondido durante milhares de anos. Só foi descoberto em dezembro de 1963, pelo arqueólogo José María Soler e pela sua equipa, dentro de um recipiente, escondido no leito seco de uma ravina da região de Villena.

Há ainda outro pormenor sob investigação. Pouco antes de ter soado o alarme do museu, outro sistema de alarme disparou num complexo desportivo da cidade, o que leva a crer que poderá ter sido provocado deliberadamente para criar uma distração.

A autarquia garante que "todos os sistemas de segurança do museu foram ativados" e que, até ao momento, não foi identificada qualquer falha nos equipamentos.
 
Mais de mil peças roubadas avaliadas em mais de 181 milhões de euros

No último ano, pelo menos nove grandes roubos foram documentados em vários museus e instituições culturais da Europa, nos Estados Unidos e no Brasil. 

Numa análise ao relatório tornado público esta semana pela Interpol, envolveram mais de 1.073 peças e destas, pelo menos 12 foram entretanto recuperadas.

O valor financeiro conhecido ultrapassa os 181 milhões de euros, embora, é de realçar que, este número seja apenas uma estimativa. 


De entre os roubos que viraram notícia em todo o mundo, o mais valioso aconteceu no ano passado, no Museu Louvre, em Paris.

A 19 de outubro os assaltantes entraram em plena luz do dia, ameaçaram funcionários e visitantes e partiram vitrinas na Galeria de Apolo.

Foram levadas nove peças de joalharia, avaliadas em cerca de 88 milhões de euros. Uma coroa foi abandonada durante a fuga, mas “oito peças continuam desaparecidas”, segundo avançou a Interpol.

Mais recentemente, em Itália, quatro obras raras do pintor renascentista Antonello da Messina foram roubadas do museu na Sicília, no feriado nacional de Ferragosto, celebrado a 15 de agosto na Itália.

O roubo terá atingido entre 70 e 80 milhões de euros, segundo uma estimativa do especialista Alberto Fiz. Duas pinturas foram posteriormente abandonadas pelos assaltantes, mas as restantes continuam desaparecidas.

De novo em França, mas em setembo do ano passado, três peças de porcelana chinesa roubadas do Museu Adrien Dubouché, em Limoges, em setembro do ano passado, estavam avaliadas em 9,5 milhões de euros.

Meses depois, de novo em Itália, três pinturas de Cézanne, Renoir e Matisse, avaliadas em mais de nove milhões de euros, foram levadas da Fundação Magnani Rocca em menos de três minutos. As três foram recuperadas em agostoA lista dos roubos inclui ainda 27 peças de joalharia Lalique, avaliadas em cerca de 4,5 milhões de euros, roubadas em França em julho; 13 peças de ouro da Idade do Bronze retiradas do museu St Fagans, no País de Gales; e o torque de ouro de Vix, com cerca de 2.500 anos, levado de outro museu francês. No caso de St Fagans, a polícia confirmou que foram roubados quatro braceletes, cinco objetos de ouro, três peças de outro conjunto e uma lunula.

No continente americano, nos Estados Unidos, o roubo do Museu de Oakland teve uma dimensão diferente: mais de mil objetos desapareceram de uma instalação de armazenamento. 

Entre eles estavam joias, cestos indígenas e artefactos históricos. As autoridades classificaram inicialmente o crime como uma ação de oportunidade e ainda não divulgaram um valor total para o espólio.

Mais do que os milhões, a Europol está preocupada com o método que acontecem os roubos. 

Num relatório divulgado esta semana, a agência alerta para a passagem de roubos tradicionalmente discretos para operações com "martelos, machados, pés de cabra e, em alguns casos, explosivos". 

Os grupos podem ser formados especificamente para cada assalto e alguns suspeitos podem ter sido recrutados através das redes sociais, num modelo descrito como “crime-as-a-service”, em português, crime de serviço.

A Interpol mantém atualmente na base de dados internacional quase 57 mil objetos de arte roubados ou desaparecidos.

(com agências)
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